O Brent caiu 4,8% na segunda-feira (15), para perto de US$ 83 por barril. A reação refletiu a perspectiva de reabertura do Estreito de Hormuz, rota responsável por aproximadamente um quinto do petróleo comercializado no mundo.
O movimento encerrou uma semana de forte correção nos preços, após o mercado concluir que o risco de uma interrupção prolongada do fluxo de petróleo deixou de ser o cenário mais provável.
O memorando anunciado por Washington e Teerã estabelece o fim das hostilidades iniciadas em fevereiro, a reabertura gradual de Hormuz e uma janela de 60 dias para negociações sobre sanções econômicas e programa
nuclear.
O texto definitivo deverá ser assinado na Suíça. Os mercados reagiram como se a crise tivesse terminado. Na prática, ela entrou em uma nova fase.
Mesmo que a navegação seja formalmente liberada nos próximos dias, armadores, seguradoras e operadores portuários dificilmente retomarão suas operações normais de forma imediata.
Durante os meses de conflito, dezenas de navios foram redirecionados para rotas alternativas, contratos foram renegociados e prêmios de seguro atingiram níveis excepcionalmente elevados.
A experiência de crises anteriores sugere que a recuperação dos fluxos marítimos costuma ocorrer em etapas. A retomada inicial do tráfego pode acontecer em poucos dias, mas a normalização dos seguros, do crédito comercial e das escalas regulares de navios normalmente exige várias semanas.
Em alguns casos, o retorno aos custos logísticos anteriores leva meses.
Embora a produção iraniana possa voltar a crescer relativamente rápido após a suspensão das restrições, refinarias e tradings precisarão recompor estoques de segurança consumidos durante o período de maior incerteza.
Importadores asiáticos, especialmente China, Índia, Japão e Coreia do Sul, deverão reconstruir gradualmente seus níveis estratégicos de abastecimento.
Esse processo cria uma situação paradoxal.
O petróleo caiu porque o risco geopolítico diminuiu, mas a demanda por reposição de estoques tende a sustentar parte do consumo adicional nos próximos meses.
Em outras palavras, o desaparecimento do prêmio de guerra não significa necessariamente retorno imediato aos preços observados antes do conflito.
Também permanecem dúvidas relevantes sobre o núcleo político do acordo.
Autoridades iranianas afirmam que aceitaram discutir limitações de longo prazo para o enriquecimento nuclear sob monitoramento internacional, enquanto Washington fala em mecanismos robustos de verificação e restrições permanentes à capacidade militar do programa.
A distância entre essas interpretações mostra que o entendimento atual é mais um acordo de transição
do que uma solução definitiva.
Para a economia global, o aspecto mais importante é que o pior cenário foi afastado. Antes do acordo, o mercado trabalhava com a possibilidade de meses,de interrupções em Hormuz, pressão inflacionária renovada e desaceleração econômica em países importadores de energia.
A reabertura do estreito reduz esse risco. Mas a reconstrução da confiança dos armadores, a recomposição dos estoques e o retorno pleno dos fluxos comerciais deverão avançar em ritmo muito mais lento do que a velocidade com que os mercados celebraram o anúncio da paz