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As sucessivas recuperações judiciais e extrajudiciais de comercializadoras de energia levaram bancos e investidores a endurecer critérios de concessão de crédito para o setor. A CNN ouviu bancos e fontes do mercado, que apontam uma mudança na percepção de risco do segmento após passivos bilionários e uma sequência de insolvências, tornando mais caro e mais difícil o acesso a financiamento para empresas do mercado livre de energia.

Embora os bancos tradicionalmente não tenham grande exposição por meio de empréstimos corporativos às comercializadoras, essas empresas dependem frequentemente de instrumentos financeiros como fianças bancárias, linhas de curto prazo para capital de giro e limites operacionais necessários para suas atividades de negociação.

Em muitos casos, essas operações contam com garantias ou colaterais das próprias empresas. Segundo fontes do setor financeiro, a deterioração do ambiente de crédito levou instituições a revisar limites, elevar exigências de garantias e reforçar controles de risco para esse segmento.

Para Anderson Brito, chefe de banco de investimento do UBS BB, a onda de recuperações judiciais e extrajudiciais levou bancos e investidores a reavaliar os riscos do segmento, elevando as exigências de garantias e o custo de crédito para as empresas do setor.

Segundo o executivo, o aumento do número de empresas em dificuldades financeiras elevou o custo de capital de giro das comercializadoras e levou instituições financeiras a exigir mais garantias para financiar operações.

As diversas recuperações judiciais e extrajudiciais gera um custo de “working capital” [capital de giro] muito mais alto dado o nível de recuperação. Depois, o nível de análise de crédito para o setor e nível de garantias que os bancos estão pedindo é mais alto”, afirmou.

A crescente crise financeira entre comercializadoras de energia acendeu um alerta vermelho no setor elétrico. Dezenas de empresas recorreram à Justiça para se protegerem de execuções de dívidas. Um levantamento da CNN apontou que as sucessivas quebras de comercializadoras de energia nos últimos anos deixaram um passivo de aproximadamente R$ 10 bilhões.

Na avaliação de Brito, o setor tende a passar por um período de acomodação nos próximos anos. Segundo ele, a entrada e consolidação de alguns agentes poderá contribuir para fortalecer a governança do mercado e restaurar a confiança de financiadores e investidores.

Ele acrescenta que o movimento provocou uma revisão ampla da percepção de risco do segmento entre bancos e gestores de recursos. “Tivemos um reequilíbrio e reavaliação quando sentamos com as principais tesourarias dos bancos e, consequentemente, com as principais assets do Brasil em relação a esse subsegmento”.

A reportagem falou também com outras instituições financeiras em condição de anonimato que relataram que o setor passou a ser analisado com mais cautela após a sequência de recuperações judiciais. Segundo essas fontes, operações que antes eram aprovadas com base no histórico comercial e na carteira de contratos das empresas agora exigem análise mais detalhada de exposição ao mercado de curto prazo, estrutura de garantias, concentração de contrapartes e capacidade efetiva de caixa para suportar oscilações de preços.

Gustavo Ayala, CEO do Grupo Bolt Energy, frisa que a crise no mercado livre atingiu um grupo específico de comercializadoras que assumiu riscos incompatíveis com sua estrutura. Entretanto, o efeito colateral é que o sistema financeiro reagiu com cautela ampla.

“O que fazemos no grupo Bolt, que tem uma comercializadora, é um trabalho ativo de educação junto aos nossos bancos parceiros, apresentando nossa trilha de crédito e nossa governança para mostrar que empresas que operaram com disciplina seguem saudáveis e continuam sendo parceiras confiáveis para o sistema financeiro”, diz.



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