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A confirmação de um novo episódio de El Niño traz uma das poucas boas notícias em um cenário climático marcado pelos prognósticos de temperaturas muito elevadas, chuvas intensas em determinadas regiões e secas pronunciadas em outras.

Se as projeções atuais se confirmarem, a temporada de furacões do Atlântico de 2026 tende a registrar menos sistemas do que a média observada nos últimos anos.

A explicação está a milhares de quilômetros das áreas tradicionalmente afetadas pelos ciclones. Quando as águas do Pacífico Equatorial se aquecem acima da média e a atmosfera passa a responder a esse aquecimento, ocorre uma reorganização dos padrões globais de circulação atmosférica.

Entre seus diversos efeitos está o aumento do chamado cisalhamento vertical dos ventos, fenômeno que ocorre quando as correntes de ar em diferentes altitudes passam a soprar com velocidades ou direções distintas. Essa instabilidade dificulta a organização interna das tempestades e limita seu potencial de intensificação.

Trata-se de uma das relações mais bem estabelecidas da climatologia moderna. Embora não determine sozinho o comportamento de uma temporada, o El Niño exerce influência suficientemente consistente para alterar projeções de seguradoras, operadores de infraestrutura, mercados de energia e órgãos de defesa civil.

Os números ajudam a dimensionar essa influência. Dados da NOAA e da CSU compilados desde 2000 sugerem que, nos anos em que o El Niño predominou durante o pico da temporada, o Atlântico registrou, em média, cerca de cinco furacões. Nos anos sob influência da La Niña, a média aproximou-se de nove. Em outras palavras, as temporadas associadas à La Niña produziram aproximadamente 80% mais furacões do que aquelas dominadas pelo El Niño.

A diferença não é trivial. Ela ajuda a explicar por que algumas das temporadas mais ativas deste século ocorreram sob influência da La Niña ou de condições neutras. Em 2020, por exemplo, o Atlântico registrou 14 furacões, um dos maiores totais da era moderna. Em 2010, foram 12. Já temporadas marcadas por El Niño forte, como 2015, apresentaram atividade significativamente mais contida.

Mas a leitura correta desses dados exige cautela. Menos furacões não significa ausência de risco. Uma temporada considerada tranquila pode produzir prejuízos superiores aos de uma temporada extremamente ativa caso um único sistema atinja uma região densamente povoada ou economicamente estratégica. A história recente está repleta de exemplos mostrando que o impacto econômico de um ciclone depende tanto de sua trajetória quanto de sua intensidade.

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Essa distinção é particularmente importante em um contexto de oceanos excepcionalmente aquecidos. O Atlântico Norte vem registrando temperaturas da superfície do mar muito acima das médias históricas nos últimos anos. Embora o El Niño atue como um mecanismo de contenção da atividade ciclônica, ele não elimina completamente outros fatores capazes de favorecer o desenvolvimento de tempestades.

O resultado é um cenário aparentemente contraditório. Ao mesmo tempo em que a climatologia sugere uma redução no número de furacões, o potencial de danos associado aos sistemas que efetivamente se formarem permanece elevado. A infraestrutura costeira, os sistemas de transporte, as redes de energia e o mercado segurador continuam expostos a riscos relevantes.

Para investidores, gestores públicos e empresas, a principal lição é evitar interpretações simplistas. O El Niño reduz probabilidades, não elimina ameaças. Ele funciona como um freio climático sobre o Atlântico, mas não como uma garantia de tranquilidade.

A temporada de 2026 deverá colocar essa relação à prova mais uma vez. Se o comportamento observado nas últimas décadas se repetir, o número final de furacões ficará abaixo do registrado em anos de La Niña. Ainda assim, bastará um único sistema atingir o local errado para transformar uma temporada estatisticamente moderada em um evento economicamente marcante.

Em climatologia, como nos mercados, médias são úteis para orientar expectativas. Mas são os eventos extremos que costumam definir a realidade.

 



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