A Raízen, gigante do setor de biocombustíveis controlada pelo grupo Cosan e Shell, protocolou pedido de recuperação extrajudicial na Comarca da Capital de São Paulo. O plano envolve a renegociação de aproximadamente R$ 65,1 bilhões em obrigações, tornando-se o maior processo de recuperação extrajudicial da história do país.

De acordo com informações divulgadas pela companhia, o processo foi estruturado de forma consensual com seus principais credores financeiros, que representam mais de 47% das dívidas que não possuem garantia real. Os bancos concentram cerca de metade dessa dívida, enquanto detentores de CRAs e debêntures respondem pela outra metade. A empresa teria encerrado dezembro com R$ 17,3 bilhões em caixa, valor significativamente menor que suas obrigações financeiras.

Operações continuam normais para fornecedores e parceiros

A Raízen destacou que o plano não abrangerá dívidas e obrigações com seus clientes, fornecedores, revendedores e outros parceiros de negócio. “Esse grupo é essencial para a sua operação e continuidade de suas atividades, as quais permanecem vigentes e continuarão sendo cumpridos normalmente nos termos dos respectivos contratos”, afirmou a empresa em comunicado. Segundo apurou a reportagem, os pagamentos a fornecedores seguirão normalmente, enquanto apenas o serviço das dívidas financeiras será suspenso.

A companhia, que começou como uma usina de açúcar e etanol e se transformou em uma empresa de biocombustíveis e logística, conta atualmente com aproximadamente 45 mil colaboradores. Sua trajetória de endividamento está relacionada a investimentos massivos realizados nos últimos anos, particularmente no desenvolvimento de etanol de segunda geração, produzido a partir da biomassa e resíduos da produção de cana-de-açúcar.

Investimentos que levaram à crise

Segundo análises de mercado, a Raízen vinha apresentando bom desempenho até 2021-2022, período em que registrou safra recorde e resultados financeiros positivos. A partir desse momento, a empresa intensificou investimentos em usinas de etanol de segunda geração, com unidades que custaram cerca de R$ 25 bilhões cada. Esses investimentos coincidiram com o auge da preocupação com sustentabilidade na Europa e demanda por combustíveis mais sustentáveis.

No entanto, com a pandemia, houve uma redução na prioridade dada às questões de sustentabilidade. Paralelamente, o mercado começou a adotar o etanol de milho como alternativa renovável, além de aumentar o uso de biodiesel. Essa mudança no cenário dos biocombustíveis não foi acompanhada pela estratégia da Raízen, que continuou apostando fortemente no etanol de segunda geração.

A expansão agressiva, que inicialmente tinha potencial de sucesso, resultou em um endividamento superior à capacidade de geração de caixa da empresa. Questões de gestão e investimentos em ativos que não trouxeram o retorno esperado também contribuíram para a atual situação financeira da companhia, levando ao pedido de recuperação extrajudicial.

 

 



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