Sustentabilidade e transição climática deixaram de ser um tema periférico e se tornaram parte das decisões estratégicas das empresas e das carteiras de crédito e investimentos, segundo Bruno Boetger, vice-presidente executivo do Bradesco.
Olhando a transição climática pela lente da economia real, o financiamento corporativo está cumprindo o seu papel de chegar até setores estratégicos, como energia e infraestrutura, que colocam em movimento a agenda da descarbonização. A cada dia, surgem novas oportunidades que estão reposicionando o papel do sistema financeiro como agente catalisador de uma economia de baixo carbono.
“No Bradesco, seguimos comprometidos com essa agenda, já superamos a meta de R$ 350 bilhões em negócios sustentáveis”, diz Boetger. Nesta entrevista à CNN, ele faz um balanço do financiamento climático no país e dá detalhes de como o Bradesco tem atuado como parceiro estratégico das empresas nesse movimento.
Nos últimos anos, o tema transição climática ganhou força entre empresas e investidores. Como você avalia o momento atual do mercado de finanças sustentáveis no Brasil?
O Brasil atingiu um ponto de inflexão. Hoje, sustentabilidade e transição climática deixaram de ser um tema periférico e se tornaram parte das decisões estratégicas das empresas e das carteiras de crédito e investimentos. O mercado de finanças sustentáveis no Brasil vive um momento de consolidação e amadurecimento.
Do lado financeiro, vemos uma agenda que ganha escala. O setor bancário tem desenvolvido produtos financeiros cada vez mais sofisticados. A transição climática impõe um imperativo claro: os recursos precisam alcançar quem mais necessita — pequenas e médias empresas, comunidades vulneráveis e setores produtivos em processo de transformação.
Para que isso aconteça de forma efetiva, é fundamental também ampliar o uso de instrumentos financeiros inovadores para alavancar capital, potencializando o alcance e a escala das soluções sustentáveis.
Além disso, temos que seguir financiando clientes que já fazem parte dessa agenda: grandes companhias que possuem potencial de mobilizar novas iniciativas e que, com sua própria atuação possuem impactos positivos, como nos setores de saneamento e energia renovável.
O Brasil está diante de uma oportunidade histórica de liderar esse movimento. As finanças sustentáveis se consolidam como um pilar estratégico do desenvolvimento. Elas estão redefinindo competências, transformando modelos de negócio e reposicionando o papel do sistema financeiro como agente catalisador de uma economia de baixo carbono.
No Bradesco, seguimos comprometidos com essa agenda, já superamos a meta de R$ 350 bilhões em negócios sustentáveis. Isso mostra que sustentabilidade não é acessório — é parte da análise de risco e retorno.
Atingir a meta antecipadamente, reforça que estamos lado a lado dos nossos clientes, contribuindo com o desenvolvimento sustentável.
Quais fatores ajudam a explicar o avanço das finanças sustentáveis no país?
Esse avanço é resultado de uma convergência virtuosa entre regulação robusta, inovação financeira, engajamento do setor bancário e o potencial natural do país.
A criação da Taxonomia Sustentável Brasileira e o fortalecimento das diretrizes da CVM e do Banco Central têm proporcionado maior transparência e segurança jurídica, estimulando a confiança dos investidores. Ao mesmo tempo, a expansão de instrumentos como títulos rotulados ESG e blended finance, como o Programa Eco Invest do Tesouro Nacional, tem ampliado o acesso a capital para projetos com impacto socioambiental positivo.
O setor financeiro, liderado por instituições como o Bradesco, tem desempenhado papel central nesse processo, integrando critérios ESG às decisões de crédito e investimento, e direcionando cada vez mais recursos para negócios sustentáveis.
Soma-se a isso uma crescente demanda por investimentos responsáveis e o reconhecimento do Brasil como potência verde, com sua matriz energética limpa, biodiversidade única e capacidade de inovação. Esses fatores colocam o país em posição estratégica para liderar a transição climática global e consolidar as finanças sustentáveis como vetor de desenvolvimento econômico e social.
Quais setores da economia têm puxado essa transformação?
A transformação das finanças sustentáveis no Brasil tem sido impulsionada por setores que combinam alto potencial de impacto com forte capacidade de inovação e escala. Os grandes vetores são energia e infraestrutura – impulsionados por investimentos em renováveis, saneamento e logística – e o agronegócio, com práticas cada vez mais voltadas à agricultura regenerativa e a restauração florestal. Esses setores estão no centro da transição porque combinam impacto ambiental direto com capacidade de escala.
No Bradesco BBI, temos visto esse movimento no dia a dia. Mais de 35 operações estruturadas em 2024 foram voltadas a geração de energia renovável, saneamento e construção sustentável, somando cerca de R$ 12 bilhões e mostrando o quanto essa agenda já é parte da economia real. Além disso, nesse mesmo ano, o Bradesco BBI estruturou 19 operações com rotulagem ESG de uma ampla gama de setores, que totalizaram R$ 11 bilhões.
O interessante é que essa iniciativa não se restringe a grandes emissores. Há espaço para empresas de médio porte que estão inovando em eficiência energética, gestão de resíduos e bioeconomia, por exemplo.
Esses setores não apenas lideram a transformação das finanças sustentáveis, como também demonstram que produtividade, rentabilidade e impacto positivo podem caminhar juntos. O papel do sistema financeiro é identificar essas oportunidades, estruturar soluções técnicas robustas e mobilizar recursos em escala para acelerar essa transição.
O que há de inovador nas operações sustentáveis hoje? E como o Brasil tem se posicionado nesse cenário?
O mercado está evoluindo rapidamente em sofisticação. O investidor institucional quer entender como a transição se traduz em oportunidade econômica. Hoje, vemos o surgimento de operações mais elaboradas, que vão além do título com a rotulagem ESG padrão. Incluem empréstimos com metas de impacto, estruturas que combinam capital comercial e capital subsidiado, além de instrumentos ligados à biodiversidade e à eficiência energética. É um movimento que mostra como o setor está incorporando inovação e mensuração de resultados à agenda climática.
Um bom exemplo é a operação de fiança para acesso ao Fundo Clima da re.green, estruturada pelo Bradesco BBI, a primeira voltada à restauração florestal em larga escala a receber rotulagem verde-escuro, associada à biodiversidade. Esse tipo de iniciativa representa o novo estágio das finanças sustentáveis no país: unir impacto, retorno e inovação, combinando o capital comercial do Bradesco para acesso a um funding público.
Outro modelo relevante é o programa Eco Invest, do Tesouro Nacional, que combina instrumentos públicos e privados para financiar a transição e restauração, uma iniciativa para diversificar fontes de funding e acelerar o amadurecimento do ecossistema de finanças sustentáveis no país.
Nesse contexto, o Brasil também tem se destacado no cenário internacional: entre 2023 e 2024, o país realizou duas emissões soberanas de títulos sustentáveis, totalizando US$ 4,25 bilhões, com foco em projetos de impacto ambiental e social positivo.
Outro avanço importante é a expansão do financiamento concessional e dos fundos climáticos multilaterais. Embora esses fundos representem apenas 3% do total global (cerca de US$ 3,4 bilhões em 2022), há expectativa de que sejam triplicados até 2030, atingindo pelo menos US$ 10 bilhões anuais. Iniciativas como o Fundo Florestas Tropicais Para Sempre (TFFF), liderado pelo Brasil, buscam tornar o acesso mais simples e alinhado às prioridades nacionais.
Essas operações revelam um mercado mais técnico e disposto a explorar novas fronteiras, como capital natural e soluções baseadas na natureza.
De que forma os bancos podem apoiar essa transição e acelerar o investimento em projetos sustentáveis?
O banco é um elo da economia real e o capital de longo prazo. O papel do banco é ser facilitador da transição, e uma espécie de tradutor, transformando metas socioambientais em soluções financeiras viáveis. Isso envolve o mercado de capitais e o crédito corporativo, que ainda é a principal fonte de financiamento da economia brasileira.
No Bradesco, temos atuado em todo o ciclo: oferecendo desde assessoria ESG até a estruturação de bonds e loans – títulos e empréstimos – rotulados ou com metas de sustentabilidade atreladas. Pelo Bradesco BBI, fomos vencedores em uma premiação da Global Finance voltada para finanças sustentáveis nas categorias “Best Bank in Green Bonds”, “Best Bank in Social Bonds” e “Best Bank Sustainable Bonds”.
Além disso, acabamos de ser destacados no Sustainable Loans Insight 2025, da Environmental Finance, entre os 10 maiores bancos globalmente e líder na América Latina em número de empréstimos rotulados, com 17 operações, totalizando US$ 489 milhões. O ranking, baseado em dados de mercado, reflete nossa atuação e estratégia de Sustentabilidade, e também reflete a maturidade e sofisticação do mercado nacional.
Olhando pra COP30, que tipo de contribuição o setor financeiro pode oferecer, e o que o Bradesco vai levar para o debate?
A COP30 representa uma oportunidade histórica para o Brasil se consolidar como referência global em soluções financeiras sustentáveis. O setor financeiro tem um papel decisivo na transição para uma economia de baixo carbono, e o Bradesco está comprometido em liderar esse movimento, mobilizando recursos e atuando lado a lado dos nossos clientes.
Na COP30, vamos levar contribuições concretas e mensuráveis, de uma agenda estratégia que já existe há mais de 80 anos. Participaremos de uma série de iniciativas, ao lado de grandes empresas brasileiras, clientes e parceiros, para apresentar cases reais que já estão em curso e têm potencial de escala global. Queremos mostrar que o Brasil não é apenas parte da conversa, é parte da solução.
Participaremos de espaços de debates estratégicos para destravar o financiamento da transição climática, fortalecer parcerias e ampliar o impacto positivo do setor privado, construindo bases necessárias que nos ajudarão nessa jornada de transição.
A COP30 não é apenas um evento, é um marco. E o Bradesco chega com uma agenda estratégica, um legado sólido e a convicção de que o futuro sustentável do Brasil passa, necessariamente, pela mobilização do capital para transformar ambição em execução.