O cenário global de profundas transformações está levando os termos “geoeconomia” e “geopolítica” a ganharem visibilidade inédita.
O primeiro, mais voltado para o jogo de xadrez do poder (inclusive militar) entre diferentes geografias do planeta, se aproxima cada vez mais do segundo, que se baseia no uso de instrumentos tecnológicos, comerciais e financeiros (inclusive sanções e tarifas) para atingir objetivos estratégicos. Ambas as abordagens agora se mesclam em um ambiente de crescentes fricções entre países e blocos que multiplica as variáveis e as incertezas.
Foi nesse contexto (e poucas horas depois de os Estados Unidos anunciarem a taxação de produtos brasileiros em 25% e tarifas de 10% e 12,5% sobre produtos de 60 economias que estariam falhando em combater a prática de trabalhos forçados) que a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) emitiu um alerta preocupante.
Reunida esta semana em Paris para a reunião anual de seu Conselho Ministerial, a entidade afirmou em relatório que o prolongamento da crise gerada pela escassez de petróleo e derivados em função do conflito no Oriente Médio pode criar um “cenário sombrio” para o planeta.
Isso ocorreria pela queda do crescimento e pela alta da inflação, além do aumento acentuado das taxas de juros e do risco fiscal de grande número de países.
Segundo a OCDE, que congrega 38 países (o Brasil está em fase de adesão) o crescimento mundial passará de 3,4% em 2025 para 2,8% do PIB em 2026 caso as disputas atuais no Oriente Médio sejam interrompidas em curto espaço de tempo.
Mas a desaceleração pode ser maior caso as tensões continuem e a navegação no estreito de Ormuz não volte à normalidade. Se isso ocorrer o crescimento pode ser de magros 2,1% este ano e de apenas 1,8% em 2027.
Isso seria um grande solavanco mesmo em comparação às mais recentes recessões econômicas (como a que ocorreu em 2008/2009) e ao período de pico da pandemia da Covid19 (2020/2021).
Uma recuperação poderia ocorrer em 2027, apontando para um crescimento global de 3,1%, caso o atual choque nos preços da energia comece a refluir no curto prazo.
A OCDE prevê ainda que uma realidade mais negativa pode elevar a 4% a média da inflação mundial, que seria de 3,7% nos Estados Unidos e no Reino Unido (o maior nível entre os países do G7).
Isso faria os bancos centrais das nações mais ricas, especialmente o Federal Reserve norte-americano, a elevar as taxas de juros em pelo menos meio ponto percentual para conter a inflação e evitar que os efeitos secundários da alta dos custos da energia contaminassem ainda mais a economia.
O relatório da OCDE sugere que 2026 já está de certa forma “precificado” como costuma definir o mercado. E demonstra preocupação maior é com 2027.
De acordo com Stefano Scarpetta, economista-chefe da OCDE, um cenário de incertezas e indefinições poderia elevar os preços da energia em 50% acima dos níveis atualmente previstos pelos mercados futuros.
Nesse caso, haveria uma “escassez substancial” de petróleo e seus derivados, além de volume insuficiente de insumos agrícolas e fertilizantes, afetando fortemente a produção mundial de alimentos.
Como consequência, subiria rapidamente o risco de rupturas não apenas no ecossistema produtivo internacional bem como no mercado financeiro. O nível de confiança no ambiente de negócios estaria drasticamente afetado e os impactos sociais, principalmente em países mais pobres, seriam enormes.
Outro fator negativo que já se desenha refere-se às finanças públicas. Taxas de juros mais altas limitariam a margem de manobra de governos para implementar medidas emergenciais destinadas a estabilizar a atividade econômica, preocupação essa também sinalizada por outros organismos multilaterais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.
São mais frequentes agora os episódios daquilo que se poderia chamar de coerção econômica dos países mais poderosos em suas relações com outras geografias. E parece pouco provável que o uso desse mecanismo seja reduzido no curto prazo.
Em outras palavras, o exercício da geoeconomia sugere que veio para ficar, de braços dados com uma geopolítica vitaminada pelo avanço da corrida armamentista. Em um mundo mais sensível e volátil, alguns países buscam exercer maior influência e aferir novos ganhos com base em seus ativos geográficos, econômicos e militares.
Outros, menos protagonistas, tendem a se proteger de riscos e ameaças buscando novas alternativas e parcerias capazes de neutralizar, pelo menos parcialmente, a vantagem competitiva e a pressão de players mais aguerridos.