O discurso do presidente Lula na abertura da COP coloca o contexto de desordem internacional como maior ameaça ao combate as mudanças climáticas e consequentemente ao avanço das negociações em Belém.

“O regime climático não está imune à lógica de soma zero que tem prevalecido na ordem internacional. Em um cenário de insegurança e desconfiança mútua, interesses egoístas imediatos preponderam sobre o bem comum de longo prazo”, disse o presidente logo no início do discurso.

Mais adiante, aborda o “descasamento entre o contexto geopolítico e a urgência climática”.

“Forças extremistas fabricam inverdades para obter ganhos eleitorais e aprisionar as gerações futuras a um modelo ultrapassado que perpetua disparidades sociais e econômicas e degradação ambiental. Rivalidades estratégicas e conflitos armados desviam a atenção e drenam os recursos que deveriam ser canalizados para o enfrentamento do aquecimento global”, afirmou.

Claro há uma crítica aí, sem citar, a guerra comercial liderada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao negacionismo climático do americano que ignorou por completo a COP de Belém. Mas também ao principal conflito armado hoje em curso no mundo, a guerra da Ucrânia, que faz os líderes da agenda climática mundial – a União Europeia – priorizar recursos para fortalecer seus exércitos e se protegerem da ameaça russa a colocar dinheiro em fundos de combate a mudanças climáticas.

É a partir desse contexto internacional em desordem que o presidente coloca como ele, a diplomacia brasileira e a presidência da COP, liderada pelo embaixador André Corrêa do Lago, apostam que Belém pode deixar algum tipo de legado. Deixar de lado as infindáveis e lentas negociações climáticas das COPs e tratar de implementar ações concretas para efetivar o que já foi negociado. Ou seja, como hoje a ordem internacional dificulta negociações e consensos, são dois os caminhos.

Primeiro, focar os debates em cima do que já foi acordado nas COPs passadas. Em especial, os termos do Acordo de Paris, celebrado na COP 15 em um mundo pré-Trump e sem uma guerra em curso na Europa.

“Celebramos os 80 anos da fundação da Organização das Nações Unidas e os dez anos da adoção do Acordo de Paris. A força do Acordo de Paris reside no respeito ao protagonismo de cada país na definição de suas próprias metas, à luz de suas capacidades nacionais. Passada uma década, ele se tornou o espelho das maiores qualidades e limitações da ação multilateral. Não podemos abandonar os objetivos do Acordo de Paris”, disse.

Segundo, deixar claro a ideia de mutirão, palavra-chave da diplomacia brasileira nesta COP que passa a ideia de que o esforço para as negociações não cabe a penas aos países, mas também ao setor privado, sociedade civil e estados subnacionais.

“O conceito de mutirão, que traduz um esforço coletivo em torno de um objetivo comum, é o espírito que vai animar Belém. A participação da sociedade civil e o engajamento de governos subnacionais será crucial”, afirmou.

Tudo para que o debate climático seja um esforço não apenas restrito a autoridades, mas sim, como disse Lula, algo que saia dos “salões diplomáticos” e alcance o “mundo real”.



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