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Ao afirmar, em agenda internacional, que o Brasil pode se tornar a “Arábia Saudita dos biocombustíveis”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sintetiza uma ambição que ganha importância em um momento de inflexão do sistema energético global.

A comparação não é trivial: implica não somente liderança produtiva, mas capacidade de influenciar preços — algo que, hoje, o mercado de combustíveis renováveis ainda não concede a nenhum país.

Os números ajudam a dimensionar o ponto de partida. O Brasil produz cerca de 35 bilhões de litros de etanol por ano, respondendo por algo próximo de 27% da produção global, segundo dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) e estimativas da AIE (Agênica Internacional de Energia).

No biodiesel, a produção supera 7 bilhões de litros anuais, impulsionada por mandatos domésticos.

Já o mercado de SAF (combustível sustentável de aviação) — produzido a partir do etanol — deve ultrapassar US$ 40 bilhões até 2030, com base em projeções da International Air Transport Association.

Esse crescimento não decorre apenas de mercado, mas de regulação e metas climáticas, sobretudo na Europa e na aviação internacional.

É nesse terceiro vetor que a ambição brasileira deixa de ser retórica e passa a ser estratégica. O SAF é caro, escasso e regulado — uma combinação que normalmente permite preços mais altos e maior lucro.

Na prática, não se trata de um mercado plenamente competitivo — e isso, neste caso, favorece quem consegue ofertar o combustível com menor intensidade de carbono.

Aqui emerge a diferença central em relação ao petróleo. O barril carrega um prêmio geopolítico clássico, que aparece quando riscos elevam o valor do curto prazo. Nos biocombustíveis, o vetor dominante é outro: um prêmio regulatório de carbono, definido por políticas públicas e metas de descarbonização.

Ainda assim, a conexão indireta com o petróleo é inevitável. Sempre que o Brent sobe — por conflito ou gargalos logísticos — a competitividade relativa de etanol e biodiesel melhora. Não é uma construção sofisticada; é arbitragem econômica direta.

A questão é se essa arbitragem pode evoluir para poder estrutural. E aqui o discurso começa a encontrar limites. Diferentemente do petróleo, os biocombustíveis ainda não têm um mercado global integrado, nem uma curva de preços consolidada.

O que existe hoje é um mosaico regulatório. A Europa paga mais, os Estados Unidos subsidiam, e outros mercados operam de forma fragmentada. Isso dificulta a formação de preço global e reduz a capacidade de coordenação de oferta.

O governo brasileiro tenta acelerar esse processo com políticas como o Combustível do Futuro. A estratégia amplia misturas obrigatórias e sinaliza demanda de longo prazo. Com isso, busca-se destravar investimentos que podem superar R$ 200 bilhões na próxima década.

Há um vetor importante a impulsionar a agenda dos renováveis. Biocombustíveis funcionam como amortecedor quando o petróleo sobe, mas deslocam o risco para dentro da economia. Maior uso de etanol e biodiesel implica maior exposição a preços agrícolas.

Portanto, a analogia com a Arábia Saudita é útil, mas potencialmente enganosa. O Oriente Médio construiu poder não apenas com reservas, mas com capacidade de influenciar o preço marginal do barril. O Brasil, por enquanto, influencia custo — não preço. E essa diferença é decisiva.

Se quiser de fato ocupar esse espaço, o país terá de fazer algo mais difícil do que expandir produção. Terá de ajudar a criar o próprio mercado em que pretende exercer poder. Sem isso, a ideia de “Arábia Saudita verde” não se sustenta. Com isso, deixaria de ser slogan e passaria a ser estratégia real de poder econômico.



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