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A transição energética costuma ser apresentada como uma corrida por energia limpa. Na prática, ela se tornou uma corrida por minerais. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda global por minerais críticos necessários à geração de energia limpa deverá triplicar até 2030 e quadruplicar até 2040. Estudo da Ernst & Young (EY) projeta que a demanda por cobre poderá dobrar até 2035, enquanto a procura por lítio poderá crescer mais de 900% até 2050.

Poucos países estão tão bem posicionados para responder a essa transformação quanto o Brasil. O país reúne grandes reservas de cobre, níquel, grafite, terras raras e lítio, além de deter a maior reserva mundial de nióbio. Mais importante: possui uma das matrizes elétricas mais renováveis do planeta em um momento em que a pegada de carbono da produção passa a ser tão relevante quanto o próprio minério.

O potencial econômico é expressivo. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) estima investimentos de US$ 76,9 bilhões no setor entre 2026 e 2030, com destaque para projetos ligados a minerais críticos. Ao mesmo tempo, cresce a disputa internacional por essas cadeias produtivas. Dados da IEA indicam que a China responde por aproximadamente 60% do processamento global de lítio e por cerca de 90% do refino de terras raras, consolidando posição dominante em etapas estratégicas da cadeia produtiva.

Essa concentração vem estimulando Estados Unidos, União Europeia e outras economias a buscar fornecedores alternativos. Nesse contexto, países capazes de oferecer minerais produzidos com estabilidade regulatória, menor intensidade de carbono e segurança de suprimento tendem a ganhar relevância crescente.

A questão brasileira, porém, não está apenas no subsolo. O país corre o risco de repetir um padrão histórico: exportar recursos naturais e importar produtos de maior valor agregado. A diferença é que agora a oportunidade envolve uma das cadeias econômicas mais promissoras do século XXI.

Há outro fator que torna essa discussão particularmente relevante. Enquanto o mundo busca minerais para viabilizar a transição energética, o Brasil enfrenta um problema aparentemente oposto: o desperdício de parte de sua energia renovável. Em 2024, cerca de 1.445 usinas foram afetadas por cortes determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico.

As interrupções, causadas principalmente por gargalos na rede de transmissão e sobreoferta localizada no Nordeste, somaram aproximadamente 400 mil horas de geração não aproveitada, com prejuízos superiores a R$ 1,6 bilhão. Em resumo, geramos energia renovável, mas não conseguimos aproveitar tudo o que produzimos.

O fenômeno conhecido como curtailment tornou-se especialmente frequente no Nordeste, justamente a região que concentra alguns dos principais investimentos em energia eólica e solar do país. A expansão do beneficiamento mineral, da metalurgia e da produção de insumos para baterias poderia absorver parte dessa eletricidade atualmente desperdiçada, agregando valor aos recursos minerais nacionais.

Mas existe uma contradição que não pode ser ignorada. A mesma transição energética que pretende reduzir emissões exigirá a ampliação da atividade mineral. Não existe veículo elétrico, turbina eólica, painel solar ou sistema de armazenamento sem mineração.

Isso significa que a competitividade futura dependerá não apenas da quantidade de minério disponível, mas da capacidade de produzi-lo com menor consumo de água, menor emissão de carbono, maior rastreabilidade e proteção efetiva da biodiversidade. Para um país que abriga a Amazônia, o Cerrado e parte significativa da biodiversidade mundial, a questão é simultaneamente econômica, ambiental e estratégica.

O futuro da mineração brasileira não será definido apenas pela quantidade de recursos existentes no subsolo. Será definido pela capacidade de transformar minerais e energia renovável em desenvolvimento tecnológico, empregos qualificados e produtos de maior valor agregado.

O debate já chegou à agenda pública. Projetos voltados aos minerais estratégicos, iniciativas de política industrial e negociações internacionais para diversificar cadeias de suprimento indicam que o país tem uma oportunidade rara de ampliar sua participação na economia de baixo carbono.

A grande oportunidade do Brasil talvez não seja apenas possuir minerais críticos. Pode ser a combinação entre recursos minerais abundantes, energia renovável e capacidade industrial — três vantagens que raramente coexistem no mesmo país.

Transformar essa combinação em desenvolvimento real depende de política industrial consistente, regulação previsível e decisão de não repetir o erro histórico de exportar riqueza e importar valor. O mundo está reorganizando suas cadeias de suprimento. O Brasil tem o que falta para essa reorganização. Falta saber o que fazer com isso.



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