Os rumores de que a Oncoclínicas poderia protocolar um pedido de recuperação extrajudicial após o vencimento da medida cautelar obtida pela companhia na Justiça ajudaram a aumentar a cautela dos investidores sobre os próximos passos da reestruturação financeira da rede de clínicas oncológicas.
A atenção do mercado se voltou para esta terça-feira (16) porque vence a medida cautelar obtida pela companhia em abril, que suspendeu temporariamente cobranças e deu proteção contra ações de credores enquanto avançavam as negociações para reestruturar a dívida.
A preocupação ganhou força nas últimas semanas e chegou a pressionar os papéis da empresa, que recentemente registraram uma das maiores quedas de sua história na Bolsa em meio às especulações sobre uma possível reestruturação formal das dívidas. Neste ano, a ação da Oncoclínicas cai 55,72% e, nesta segunda-feira, a perda foi de 1,64%.
Segundo fontes próximas à companhia, porém, a tendência é que a Oncoclínicas busque primeiro avançar nas negociações com seus principais credores antes de decidir sobre o protocolo de uma recuperação extrajudicial.
A avaliação é que uma eventual recuperação extrajudicial teria mais chances de sucesso se chegasse à Justiça já respaldada por entendimentos previamente negociados entre a empresa e os detentores de parcela relevante da dívida.
Nesse contexto, o vencimento da cautelar nesta terça-feira não é visto, neste momento, como um gatilho automático para o protocolo de uma recuperação extrajudicial.
Embora a proximidade da data tenha alimentado especulações no mercado sobre os próximos passos da companhia, interlocutores envolvidos nas tratativas afirmam que as negociações continuam em curso e que nenhuma definição formal foi tomada até o momento.
Na última sexta-feira, um movimento considerado relevante pelos credores ocorreu nos bastidores. A Journey Capital, em conjunto com o escritório Felsberg Advogados, foi contratada para representar os detentores das emissões de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) da companhia, que concentram a maior parte da dívida financeira sujeita a uma eventual reestruturação.
Levantamento obtido pela CNN mostra que os instrumentos de mercado de capitais (debêntures e CRIs) somam cerca de R$ 2,93 bilhões, o equivalente a 91% do endividamento financeiro da companhia e aproximadamente 67% dos créditos sujeitos a uma renegociação. Somente os CRIs, detidos principalmente por pessoas físicas, o volume é de R$ 1,524 bilhão.
Entre os principais credores estão investidores distribuídos por plataformas como XP, BTG Pactual, Safra e Banco do Brasil, além de gestoras como BB Asset, Santander Asset, Valora e ARC Capital.
Na avaliação de fontes do mercado, a contratação de assessores pelos detentores dos CRIs indica uma tentativa de coordenação entre os principais credores para ganhar força nas negociações e influenciar os próximos passos da reestruturação.
A Oncoclínicas atravessa sua maior crise financeira. No balanço de 2025, a companhia registrou prejuízo de R$ 3,67 bilhões e dívida financeira próxima de R$ 3,2 bilhões. A empresa também encerrou o ano descumprindo indicadores financeiros previstos em contratos de dívida, ao registrar alavancagem de 4,3 vezes o Ebitda, acima do limite de 3,5 vezes estabelecido em parte dos contratos.
Em comunicado recente ao mercado, a companhia informou que uma eventual recuperação extrajudicial continua sendo avaliada no âmbito das discussões conduzidas com credores.
A crise financeira também teve reflexos na operação. Nos últimos meses, pacientes relataram interrupções em atendimentos e tratamentos em algumas unidades da rede em razão de dificuldades relacionadas ao fornecimento de medicamentos. A empresa afirmou na ocasião que trabalhava para normalizar os serviços.
Procurada pelo CNN Money, a Oncoclínicas não deu retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestações.