O petróleo voltou ao centro do tabuleiro geopolítico desde a última semana, com a escalada de tensão entre Estados Unidos e Irã. O barril acumula alta, incorporando um prêmio de risco que, segundo analistas do setor, não está ligado aos fundamentos clássicos de oferta e demanda.

Para Adriano Pires, sócio-fundador do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), o movimento ainda não configura um choque real de oferta, mas sim um risco geopolítico sendo precificado.

“O que está acontecendo agora ainda é risco geopolítico. Choque a gente vai falar se houver interrupção no Estreito de Ormuz. Aí sim você pode ter um petróleo chegando a US$ 100 o barril tranquilamente”, afirmou.

O contexto, segundo ele, ajuda a entender a mudança. O petróleo vinha de uma queda superior a 20% no último ano, com oferta global crescendo acima da demanda. A expectativa para 2026 era de barril próximo de US$ 60. O Irã alterou esse cenário.

Diferentemente da Venezuela, cuja produção representa cerca de 1% da oferta global, o Irã é a terceira maior reserva do mundo e está entre os cinco maiores produtores, com 4 a 5 milhões de barris por dia. Além disso, é fornecedor estratégico para a China.

O ponto mais sensível, porém, é o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um terço do petróleo comercializado no planeta. Uma interrupção ali transformaria risco em choque.

“Se houver interrupção do tráfego de petroleiros em Ormuz, você pode ter petróleo acima de US$ 100. Talvez até mais, dependendo da estratégia militar”, alerta Pires.

O especialista diferencia o momento atual do início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Naquele período, havia restrição estrutural de oferta, após anos de redução de investimentos no setor. A demanda crescia e a oferta não acompanhava.

“Na época da Rússia e Ucrânia, você tinha um grande produtor envolvido e uma oferta que não crescia mais que a demanda. Hoje é diferente. Há bastante oferta no mercado”, explicou.

Ou seja, o atual movimento é menos estrutural e mais dependente de desdobramentos geopolíticos. O preço reage ao noticiário: ameaça de ataque eleva o barril e sinal de negociação reduz a tensão.

Mas há outro fator que diferencia a atual tensão geopolítica e pode aliviar a pressão nos preços da commodity. A produção fora da Opep vem crescendo. Estados Unidos, Brasil, Guiana e Argentina ampliaram oferta nos últimos anos.

“Essa oferta crescente fora do Oriente Médio pode amenizar parte do impacto”, afirmou.

Mesmo assim, eventuais desvios logísticos encareceriam fretes e pressionariam preços.

E o efeito no Brasil?

Para o Brasil, a alta do petróleo tem dois lados. Do ponto de vista econômico, é positiva. O petróleo já é o principal item da balança comercial brasileira. Barril mais alto significa mais exportações, mais dólares, mais royalties e maior geração de caixa para a Petrobras.

“O saldo econômico é muito bom. Como o Brasil é grande produtor e tende a ser mais ainda, petróleo caro é positivo”, disse Pires.

Mas politicamente o cenário muda.

“Do ponto de vista político é negativo. Se o petróleo sobe muito, a Petrobras teria que aumentar gasolina e diesel. Caso contrário, deixa de capturar os benefícios do preço internacional.”

Combustível é variável sensível, especialmente em ano eleitoral. Se o barril ultrapassar a marca de US$ 100, o governo pode enfrentar o dilema entre preservar a lógica econômica ou amortecer o impacto inflacionário e político.

No cenário-base de Adriano Pires, ainda estamos diante de um prêmio de risco. Mas, se houver ataque efetivo ou interrupção em Ormuz, o mercado pode ver o petróleo voltar rapidamente à casa dos três dígitos.



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