A taxa média de inadimplência no Brasil atingiu 4,7% em maio, o maior patamar desde o início da série histórica, em 2011. O cenário preocupa especialistas, que apontam a combinação entre juros elevados, endividamento crescente e o avanço das casas de apostas como fatores determinantes para esse resultado.

Em entrevista ao CNN Money, Carla Beni, conselheira do Corecon-SP (Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo), analisou o contexto econômico e destacou que o país convive com a taxa Selic em dois dígitos desde fevereiro de 2022.

Segundo ela, esse cenário pressiona diretamente os juros cobrados no crédito rotativo do cartão de crédito, que chegam a 436% ao ano — a modalidade mais cara e de mais fácil acesso para o consumidor.

Apesar da inadimplência recorde, o mercado de trabalho segue relativamente aquecido. Carla Beni destacou que os dados do Caged apontam um salário médio inicial em torno de R$ 2,4 mil para trabalhadores com carteira assinada.

“Essa massa salarial vem subindo, mas já vem subindo um pouquinho menos”, ponderou.

Para ela, o fato de o emprego ainda estar resiliente é um fator que impede um cenário ainda mais grave: “Você já imaginou se a gente tivesse esse processo de inadimplência todo com uma queda maior ainda nos postos de trabalho?”

Carla Beni também contextualizou a ausência de um limite legal para a cobrança de juros no Brasil. Ela explicou que, desde a Constituição de 1988, havia um teto de 12% reais ao ano para o sistema financeiro. No entanto, esse limite foi eliminado em 2003, após pressão do setor financeiro iniciada em 1999.

“O céu é o limite”, resumiu.

Atualmente, embora exista uma regra que impede a dívida de dobrar — ou seja, que proíbe a cobrança de mais de 100% do valor inicial —, os juros do rotativo ainda chegam a patamares que ela classificou como parte do chamado “livre mercado”.

“Nós deveríamos pensar em colocar um limite para essa cobrança de juros”, defendeu.

Sobre os programas de renegociação de dívidas, Carla Beni avaliou que o Desenrola 1.0 teve adesão menor do que o esperado, em parte por dificuldades no uso do aplicativo e pela exigência de um curso de educação financeira como condição para participação.

Já o Desenrola 2.0 permite que o consumidor negocie diretamente com a instituição financeira, o que deve facilitar o processo.

“A adesão do primeiro foi menor do que se esperava e essa do segundo está tendo uma adesão maior agora”, disse.

O programa inicial tem duração de 90 dias, sem anúncio de prorrogação até o momento.



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