Representantes da indústria e do governo brasileiro acompanham com cautela a participação do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) nas audiências sobre a possível imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros nos Estados Unidos. A informação foi apurada pela analista de Política da CNN Larissa Rodrigues.
As audiências, que se estendem pelo segundo e último dia de debates, reúnem representantes de diversos setores brasileiros afetados pela sobretaxação, incluindo a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e segmentos como calçados e agronegócio.
Temor de que a política interfira nas negociações técnicas
Segundo Larissa Rodrigues, fontes tanto da CNI quanto de setores diretamente atingidos pela possível sobretaxação — que pode chegar a 37,5% — relataram um temor de que a dimensão política do debate acabe complicando as articulações de natureza técnica.
“Há um temor o quanto a política pode ser misturada nisso e complicar as articulações técnicas“, relatou a analista. A preocupação central é que o posicionamento de aliados bolsonaristas possa trazer prejuízos concretos à indústria brasileira, mesmo que parte do empresariado tenha simpatia pelo campo político representado por Flávio Bolsonaro (PL).
A estratégia adotada pela indústria brasileira nas audiências é essencialmente técnica. Os representantes do setor produtivo buscam demonstrar que a sobretaxação americana pode prejudicar o próprio mercado norte-americano, uma vez que há produtos exportados pelo Brasil que os Estados Unidos necessitam e que não têm fornecedores alternativos.
Dados divulgados pela CNI, obtidos em primeira mão pela CNN, apontam que cerca de 4 mil produtos brasileiros podem ser atingidos, com impacto de quase R$ 15 bilhões em exportações.
Roberto Azevedo representa a CNI nas audiências
Para reforçar a defesa técnica da indústria brasileira, a CNI contratou Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) e ex-embaixador.
Larissa Rodrigues destacou que Azevêdo já negociou diretamente com Donald Trump em duas ocasiões durante o primeiro governo americano — uma em Davos e outra em Washington — antes de renunciar ao cargo na OMC diante da inércia dos Estados Unidos em descongelar pautas importantes para a organização.
A presença de Azevêdo é vista como estratégica pelo peso de seu nome e pela experiência acumulada em negociações de comércio exterior e na legislação norte-americana.
Segundo a analista, ele chega às audiências “muito bem munido de informações e muito bem preparado para esse encontro”, com foco no argumento de que a sobretaxação pode gerar prejuízos ao mercado americano.
Ainda assim, o setor produtivo mantém cautela diante da possibilidade de que o componente político da participação de Flávio Bolsonaro (PL) venha a interferir nessa linha de defesa construída.