A sucessão de ondas de frio intenso no hemisfério norte, com temperaturas excepcionalmente baixas nos Estados Unidos, na Europa e em partes da Ásia, reacendeu uma falsa dissonância no debate público: como falar em aquecimento global diante de um inverno tão rigoroso?
A resposta está menos na contradição e mais na complexidade do sistema climático — e nos efeitos indiretos da própria mudança do clima.
O aquecimento global não elimina o frio. Ele altera a dinâmica da atmosfera.
O rápido aumento das temperaturas no Ártico — região que aquece mais de duas vezes acima da média global — enfraquece o gradiente térmico entre altas e médias latitudes.
Esse desequilíbrio afeta o comportamento do vórtice polar, estrutura de ventos que normalmente mantém o ar extremamente frio confinado ao extremo norte do planeta.
Quando o vórtice se enfraquece ou se fragmenta, massas de ar polar escapam com mais facilidade para latitudes médias, provocando episódios de frio intenso e persistente.
É esse mecanismo que ajuda a explicar por que invernos extremos têm ocorrido com maior frequência em um planeta que, no balanço global, segue aquecendo.
Dados consolidados por instituições como a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) e a Organização Meteorológica Mundial mostram que os anos recentes continuam entre os mais quentes da série histórica, mesmo com eventos de frio severo em escala regional.
O paradoxo é apenas aparente: extremos frios localizados coexistem com recordes de calor, secas prolongadas e ondas de calor cada vez mais frequentes.
No hemisfério sul, o Brasil oferece o contraponto eloquente dessa mesma instabilidade climática. Nos últimos anos — e com especial intensidade recentemente — o país enfrentou ondas de calor sucessivas, prolongadas e fora do padrão histórico, com recordes de temperatura em capitais e no interior, elevação persistente das mínimas noturnas e impactos diretos sobre saúde pública, consumo de energia, produtividade do trabalho e disponibilidade hídrica.
Esses extremos térmicos, associados à maior frequência de bloqueios atmosféricos e ao aquecimento anômalo do Atlântico, reforçam que a mudança do clima não opera de forma homogênea: enquanto partes do hemisfério norte lidam com episódios de frio severo, regiões tropicais como o Brasil experimentam um novo patamar de calor extremo, ampliando riscos econômicos, sociais e ambientais.
Do ponto de vista econômico e estratégico, essa volatilidade climática crescente amplia riscos sistêmicos. Setores como energia, transporte, agricultura e seguros enfrentam maior imprevisibilidade operacional, aumento de custos e necessidade de investimentos adicionais em resiliência.
Redes elétricas são pressionadas por picos de demanda no frio extremo, cadeias logísticas sofrem interrupções e a precificação de riscos climáticos se torna mais complexa.
Em síntese, o inverno rigoroso no hemisfério norte não desmente o aquecimento global.
Ele é, cada vez mais, um de seus sintomas. A mudança climática não se manifesta apenas por médias mais altas, mas por um sistema climático mais instável, no qual extremos — de calor ou de frio — tornam-se mais frequentes, mais intensos e mais difíceis de prever.