Há acordos que encerram guerras. Outros apenas organizam intervalos. O memorando de entendimento firmado entre Estados Unidos e Irã nessa semana pertence, com alta probabilidade, à segunda categoria. Isso não é necessariamente um fracasso, mas é importante não confundir as duas coisas.
O acordo estende o cessar-fogo por 60 dias, prevê a reabertura do Estreito de Ormuz e abre uma janela de negociação sobre o programa nuclear iraniano, que permanece a questão mais sensível e estruturalmente irresolvida de todo o conflito.
O memorando é composto por 14 pontos e inclui o fim das hostilidades, o levantamento do bloqueio naval norte-americano e a liberação de parte dos ativos iranianos congelados, estimados em cerca de US$ 24 bilhões (equivalente a cerca de R$ 120 bilhões).
Do ponto de vista imediato, os Estados Unidos obtiveram o que precisavam para sair do momento mais custoso da guerra.
O Estreito de Ormuz estava efetivamente sob controle iraniano desde os primeiros dias do conflito, interrompendo o tráfego de cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito mundiais.
A reabertura da rota alivia pressão sobre mercados energéticos, controla vetores inflacionários e restaura previsibilidade a cadeias logísticas globais. Mercados reagiram imediatamente com alta, enquanto o preço do petróleo caiu mais de quatro dólares por barril.
Para um governo que tem na estabilidade econômica doméstica sua principal métrica de legitimidade, isso é substancial.
Donald Trump pode, com razoável credibilidade, vender o acordo como demonstração de força. O que não pode fazer, com a mesma honestidade, é chamá-lo de solução estratégica.
O objetivo declarado mais importante da campanha militar norte-americana — neutralizar de forma definitiva o programa nuclear iraniano — simplesmente não foi alcançado.
As negociações futuras, dentro da janela de 60 dias, deverão tratar de temas como enriquecimento de urânio, estoques de material físsil e resoluções do Conselho de Segurança da ONU e da Agência Internacional de Energia Atômica.
São exatamente os pontos que o acordo de 2015 levou anos para endereçar e que os Estados Unidos unilateralmente descartaram em 2018.
Vulnerabilidades do acordo entre EUA e Irã
Há pelo menos quatro vulnerabilidades estruturais no acordo que merecem atenção analítica.
A primeira é a assimetria narrativa: enquanto Trump apresenta o memorando como acordo praticamente concluído, autoridades iranianas o tratam como ponto de partida de uma negociação mais ampla.
Essa divergência de enquadramento é historicamente perigosa, porque permite que cada lado venda domesticamente uma versão diferente do que foi assinado.
A segunda vulnerabilidade é regional: O acordo estabelece condições para um cessar-fogo no Líbano, mas o ministro da Defesa israelense afirmou que Israel manterá tropas no sul do país indefinidamente, enquanto o Hezbollah segue operando.
A arquitetura de milícias, mísseis e influência iraniana na região não foi desmontada. Um único acontecimento no Líbano, no Iraque ou no Golfo pode contaminar rapidamente todo o processo.
A terceira é doméstica, do lado norte-americano: Republicanos de perfil mais assertivo já avaliam com ceticismo qualquer arranjo que permita ao Irã preservar seu regime, seus recursos e capacidade nuclear residual.
A comparação com o “acordo de Obama” está sendo feita. Se essa narrativa ganhar tração, a posição norte-americana pode endurecer antes mesmo do prazo de 60 dias.
A quarta vulnerabilidade é simplesmente o tempo: Dois meses é um horizonte extremamente estreito para negociar questões que envolvem soberania, segurança regional, regimes de inspeção e décadas de desconfiança acumulada.
O Irã reafirmou o compromisso de não desenvolver armas nucleares sob o Tratado de Não Proliferação, mas reafirmar compromissos preexistentes é distinto de aceitar novos mecanismos de verificação.
Assim, o que está em curso não é o fim de um conflito; é a suspensão administrada dele.
Os Estados Unidos conseguiram sair do momento mais caro e mais exposto da guerra. Isso tem valor real. Mas comprar tempo sem uma estratégia clara para usá-lo bem é apenas adiar, com juros, a conta que ainda virá.