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A compra da Serra Verde, em Goiás, pela americana USA Rare Earth, em uma operação de cerca de US$ 2,8 bilhões, fez mais do que movimentar o setor mineral.

Expôs uma mudança de escala: o Brasil deixou de ser promessa geológica e passou a integrar, de fato, a disputa global por terras raras magnéticas — insumos críticos para veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa.

O movimento ocorre no momento em que Estados Unidos e aliados buscam reduzir a dependência da China, que ainda domina o refino e a manufatura da cadeia. É justamente nessas etapas — e não na extração — que se concentra a maior parte do valor econômico, tecnológico e estratégico.

Portanto, o entusiasmo brasileiro precisa vir acompanhado de realismo. O país possui base mineral relevante, mas ainda opera com produção limitada, processamento incipiente e forte dependência externa nas fases mais sofisticadas.

A Serra Verde, em operação desde 2024, é hoje o principal ativo do país e um dos poucos fora da Ásia com fornecimento relevante de terras-raras magnéticas.

Esse é o ponto onde o tema deixa de ser somente mineral e passa a ser industrial. No Senado, o PL 2.210/2021 propõe diretrizes para o desenvolvimento tecnológico da cadeia.

Já o PL 2.197/2025 trata da exportação de minerais sem beneficiamento, tentando evitar a repetição do padrão histórico de vender matéria-prima e importar tecnologia.

Na mesma direção, o PL 4.443/2025, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, avançou na Comissão de Assuntos Econômicos e aguarda análise na Comissão de Infraestrutura. O texto inclui instrumentos de financiamento e estímulo à agregação de valor no país.

Na Câmara, o cenário é mais fragmentado. O PL 500/2026 propõe a criação de uma reserva nacional de terras raras, enquanto o PL 534/2026 sugere uma moratória temporária para exploração até que seja definida uma política estruturada.

O contraste entre essas propostas revela a ausência de consenso sobre como explorar o potencial brasileiro.

Essa divergência reflete uma dúvida estratégica mais profunda: como atrair capital e acelerar projetos sem aceitar, mais uma vez, o papel de fornecedor de insumos de baixo valor agregado.

O Brasil tem minério. Ainda não tem, em escala, a indústria que captura a maior parte da renda — separação, metalização e produção de ímãs permanentes.

O Executivo começou a reagir. A Portaria Normativa MME nº 120/2025 incluiu projetos de transformação mineral no regime de debêntures incentivadas, abrangendo produtos com grau de pureza adequado à produção de ímãs. É um passo importante, mas insuficiente para resolver o déficit industrial do setor.

A criação, em 2025, da Frente Parlamentar em Defesa das Terras Raras reforça que o tema deixou de ser técnico e passou a ser estratégico. O debate já não é apenas sobre exploração, mas sobre o papel do país em uma cadeia global em reorganização.

O risco é conhecido. O Brasil pode ser competitivo onde a renda é menor e dependente onde ela é maior. A operação da Serra Verde mostra que o capital internacional já identificou o valor desses ativos. Resta saber se o país fará o mesmo — e a tempo.



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