Por anos, o Japão exportou dinheiro barato para o resto do mundo.
Agora, os sinais de que a economia japonesa está finalmente despertando levantam uma questão que começa a ganhar espaço entre investidores: o que acontece com os mercados globais quando uma das últimas fontes de liquidez barata do planeta deixa de ser tão barata assim?
Os indicadores de atividade divulgados nesta terça-feira (23) reforçaram uma imagem cada vez mais clara da economia global: os grandes blocos econômicos estão operando em velocidades diferentes.
Nos Estados Unidos, a atividade continua resiliente. O PMI composto subiu para 52,2 pontos em junho, enquanto o PMI industrial avançou para 55,7 pontos, mostrando uma economia que segue crescendo apesar dos juros elevados.
Na Europa, o cenário é outro. O PMI composto da zona do euro ficou em 49,5 pontos, abaixo da linha dos 50 que separa expansão de contração. A Alemanha, maior economia do bloco, registrou seu pior nível de atividade em 18 meses, reforçando as preocupações com o crescimento europeu.
Mas foi o Japão que chamou a atenção dos mercados. O PMI industrial japonês avançou para 54,9 pontos, enquanto o PMI composto alcançou 52,5 pontos.
Os números sugerem uma recuperação mais consistente da atividade, justamente em um momento em que o país tenta deixar para trás uma das experiências econômicas mais peculiares da história recente.
Durante mais de três décadas, o Japão conviveu com crescimento fraco, inflação próxima de zero e juros extremamente baixos. Em alguns momentos, os juros chegaram a ficar negativos. O resultado foi a transformação do país em uma espécie de fornecedor global de capital barato.
Investidores do mundo inteiro passaram anos tomando recursos em ienes para aplicar em ativos mais rentáveis em outros países, uma estratégia conhecida como carry trade.
Parte desse dinheiro ajudou a financiar investimentos em bolsas, títulos corporativos e mercados emergentes ao redor do mundo – o que por muito tempo beneficiou diretamente a moeda brasileira. Agora, esse cenário começa a mudar.
Com a inflação voltando a aparecer, salários em alta e atividade econômica mais forte, o Banco do Japão iniciou um processo gradual de normalização monetária e elevou sua taxa básica para 1%. Ainda assim, o iene continua perdendo valor frente ao dólar.
A mudança ainda parece modesta. Mas para um país que passou décadas convivendo com juros próximos de zero, trata-se de uma transformação relevante. É justamente aí que surge a preocupação dos mercados.
Se a recuperação econômica se consolidar e o Banco do Japão for obrigado a acelerar o ritmo de alta dos juros, parte dos recursos que hoje circulam pelo sistema financeiro global pode mudar de direção.
Na prática, isso significaria menos liquidez disponível para ativos de risco e maior competição por capital em diversas regiões do mundo.
O tema ganhou relevância porque o Japão continua vivendo uma situação peculiar. Apesar da melhora da atividade e das altas de juros promovidas pelo Banco do Japão, o iene permanece bastante desvalorizado frente ao dólar.
A explicação está na diferença de desempenho entre as economias. Os Estados Unidos continuam oferecendo crescimento mais forte, juros mais elevados e um mercado financeiro que segue atraindo grande parte dos fluxos globais de capital.
O resultado é uma economia global em três velocidades. De um lado, os Estados Unidos seguem crescendo o suficiente para justificar a cautela do Federal Reserve. De outro, a Europa enfrenta dificuldades para recuperar dinamismo.
E, no meio desse cenário, o Japão tenta voltar à normalidade depois de décadas de excepcionalidade monetária.
Para investidores, a principal mensagem dos dados está no fato de que o Japão, depois de anos sendo visto como uma economia estagnada e previsível, volta a se tornar uma variável relevante para os mercados globais.
E quando a terceira maior economia do mundo muda de direção, os efeitos costumam ser sentidos muito além de suas fronteiras.