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Regras estáveis, economia sem susto e mão de obra abundante. Os três ingredientes foram essenciais para uma das mais tradicionais empresas têxteis do Brasil cruzar a fronteira. No fim do mês, a catarinense Karsten inaugura uma fábrica no Paraguai, a primeira fora do país.

“Seja pela política ou economia, o Paraguai se mostra um país extremamente estável. Ao longo da última década, não houve nenhum grande evento que comprometesse essa análise”, resume Márcio Luiz Bertoldi, CEO da Karsten.

Com 143 anos em Blumenau, a companhia será a mais nova beneficiada pelo Regime de Maquila. Criado em 1997, o sistema tributário especial é destinado às empresas estrangeiras que se instalam no Paraguai para exportar.

Nesse regime especial, as condições econômicas são ainda mais amigáveis. A carga se resume a um tributo único de 1% sobre o valor agregado ou exportações.

Além disso, a exportadora passa a ser totalmente isenta de imposto de importação, Imposto de Renda corporativo, tributo sobre dividendos ou renda de não residentes. Há, ainda, possibilidade de recuperar o Imposto sobre Valor Agregado pago em insumos paraguaios.

“A discussão sobre ampliar a capacidade de produção começou em 2014. Nós cogitamos no Brasil e até fizemos uma nova fábrica no Brasil, uma segunda unidade. No entanto, o planejamento estratégico nos levou a internacionalizar no Paraguai”, disse Bertoldi.

Dados do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai mostram que as empresas do regime exportaram recorde de US$ 1,3 bilhão em 2025. Em um ano, o valor cresceu 13,8%. Desde a pandemia, a cifra saltou 135%.

Além da baixa carga tributária, as empresas são beneficiadas pela energia elétrica barata – o país gera muito mais energia do que consegue consumir – e pela abundância de mão de obra em uma população bem mais jovem que no Brasil.

A oferta de trabalhadores foi um ponto importante para a Karsten.

Com Santa Catarina vivendo uma situação de praticamente pleno emprego, a Karsten tem enfrentado dificuldades para preencher postos de trabalho. “Até bem pouco tempo atrás, estávamos com quase 10% de todas as vagas da companhia abertas. Isso é muito difícil”, desabafa o CEO.

Maquila para o Brasil

O regime especial paraguaio é, basicamente, usado por empresas brasileiras. Em 2025, 64% de todas as exportações das maquilas foram para o Brasil. O segundo destino foi a Argentina, com participação de apenas 16% – um quarto da fatia brasileira.

Entre os setores, a indústria de autopeças lidera com 34% de todas as exportações do ano passado. Em seguida, aparecem a indústria têxtil (16%), alumínio (14%) e produtos alimentícios (12%).

Em Assunção, o ministro de Economia e Finanças, Carlos Fernández Valdovinos, explica que as empresas brasileiras sempre foram o grande alvo do programa.

“Nossa ideia nasceu ao ver que parceiros como o Brasil tinham importações muito grandes da China. Então, a ideia foi substituir a China. Com investimento brasileiro vindo para o Paraguai, você não tira um emprego brasileiro. Você substitui importações chinesas. Ganha o investidor brasileiro e ganha também o Paraguai”, diz o ministro.

O CEO da Karsten tem a mesma avaliação. “É importante dizer que as operações no Brasil não serão substituídas pela operação paraguaia. A nossa planta industrial em Santa Catarina continua sendo uma planta de desenvolvimento, de inovação. No Paraguai, o plano é internacionalizar”.

Ao ser questionado sobre o que o Brasil precisaria para reter esse tipo de investimento, Bertoldi fala em “política de Estado”. Para o CEO, o sucesso de vizinhos e de potências como a Índia e a China reside em um binômio inseparável: educação e indústria.

“Se o Brasil tivesse essa política estabelecida, eu não tenho dúvida de que a gente teria condições de atrair ainda mais capital”, afirma o CEO.

*A CNN Brasil viajou a convite do BID



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