A reversão, por pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, da suspensão do jogador Folarin Balogun tem implicações políticas e geopolíticas, além de esportivas. Ela entra em choque com a política de Trump para a imigração, cria mais uma tensão com a Europa na véspera da cúpula da Otan e pode prejudicar a inserção dos EUA no mundo do futebol, sem falar da imagem da própria Fifa.
Depois de uma decisão desfavorável da Suprema Corte, Trump pressiona o Congresso a aprovar uma lei – que na verdade precisaria ser uma emenda constitucional – eliminando o direito à cidadania americana para crianças que nascem nos Estados Unidos de pais que estão ilegalmente ou de passagem pelo país.
Esse é precisamente o caso do artilheiro da seleção americana. Ele nasceu em Nova York porque sua mãe, nigeriana, em estado avançado de gravidez, não conseguiu voar de volta para a Grã-Bretanha, onde a família morava. Balogun ficou só um mês nos EUA. Ele cresceu no Reino Unido e competiu pela seleção inglesa no nível juvenil. Só em 2023 o craque resolveu se juntar à seleção americana.
Ao enaltecer a importância do jogador para a seleção americana, Trump disse que não era justo um árbitro excluí-lo da partida seguinte. E ainda atacou a reputação do juiz brasileiro da partida, Raphael Claus, afirmando que ele não tinha um bom histórico, sem explicar a que se referia. No lance que motivou o cartão vermelho, confirmado pelo VAR, Balogun cravou propositalmente a chuteira na panturrilha do zagueiro Tarik Muharemović, da Bósnia e Herzegovina, que avançava com a bola.
Depois de um telefonema de Trump ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, a Fifa anulou a suspensão de Balogun no jogo desta segunda-feira (6) contra a Bélgica. A situação gerou indignação no mundo do futebol, principalmente da Europa. A Real Associação Belga de Futebol apelou da decisão da Fifa, sem sucesso. Várias entidades se manifestaram contra a intromissão, incluindo a Uefa (União das Associações Europeias de Futebol) e a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), que saiu em defesa do árbitro brasileiro.
“Essa decisão claramente levanta muitas questões”, disse o chanceler belga, Maxime Prévot, que coincidentemente foi árbitro de futebol. “Se um telefonema é o que realmente explica essa decisão incompreensível, solaparia as regras mais básicas do futebol e dos esportes.”
O caso tende a se tornar mais um ponto de tensão entre os EUA e seus aliados europeus, que se reúnem nesta terça-feira (7) em Ancara, capital da Turquia. Trump começou o governo falando em anexar a Groenlândia, território da Dinamarca; colocou em dúvida o compromisso americano de defender a Europa; aproximou-se de Vladimir Putin, da Rússia, e retirou grande parte da ajuda militar à Ucrânia; e impôs tarifas ao comércio com a União Europeia.
Por fim, a imposição do desejo do presidente americano sobre a Fifa e contra as regras do futebol pode gerar antipatia e resistência contra a inserção dos EUA no mundo do futebol – que esta Copa precisamente pretendia impulsionar.
Infantino já havia criado bastante desconforto ao criar um prêmio de paz para conceder a Trump – frustrado por não ter sido agraciado com o Nobel da Paz no ano passado.
Essa certamente não é a primeira vez que governantes influem em decisões da Fifa. Em 2010, o então presidente francês, Nicolas Sarkozy, foi acusado de apoiar a candidatura do Catar a sede da Copa de 2022, em troca de uma série de benefícios para a França, incluindo contratos bilionários para adquirir aviões da Airbus.
Na época, ironicamente, os Estados Unidos, candidatos a sede da Copa e concorrentes da Europa na fabricação de aviões, foram os mais prejudicados.