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O Move Brasil, programa de R$ 30 bilhões do governo federal que provocou uma corrida sem precedentes às concessionárias, mostrou o tamanho do abismo entre querer trocar de carro e conseguir passar pela análise dos bancos participantes, especialmente os ligados diretamente às montadoras.

O programa começou como uma das maiores apostas para aquecer o mercado automotivo de veículos de até R$ 150 mil, faixa onde se concentra grande parte do volume de negócios. A proposta é renovar a frota usada por taxistas e motoristas de aplicativo e colocar carros novos nas mãos de quem depende do volante para trabalhar.

Mas o primeiro retrato do Move Brasil mostra uma política pública menos simples do que parecia: lojas cheias, consumidores interessados, vendedores correndo e tentando entender o processo e muitos motoristas descobrindo que cadastro aprovado não é sinônimo de crédito liberado. O movimento deste sábado (20) representou um terço do registrado na sexta (19).

Nas concessionárias, dois fatos chamaram atenção: o congestionamento de dados entre empresas e instituições financeiras e a rejeição do CPF de muitos compradores. Nem todos os bancos estavam operando com o programa, segundo Rebeca Abreu, gerente de concessionária. Os bancos ligados às montadoras, sim.

A Stellantis, por exemplo, divulgou um comunicado afirmando que o banco do grupo está operando normalmente as condições de financiamento. O mesmo para a Chevrolet e VW. Nas lojas das marcas chinesas, as instituições associadas filtravam as fichas.

O problema é que, entre a promessa pública e a assinatura do contrato, existe uma barreira chamada análise de crédito. Nas primeiras horas de operação, relatos de dificuldades começaram a circular entre motoristas, concessionárias e redes sociais.

O BNDES negou problemas no funcionamento do programa e informou que as operações foram iniciadas normalmente. A explicação oficial é que o banco opera a linha por meio de instituições financeiras credenciadas e aptas a trabalhar com seus recursos.

O dinheiro está disponível, mas quem decide se o motorista leva o carro para casa é o banco. O Move Brasil aprova a elegibilidade do profissional, não a vida financeira dele. O cadastro confirma se o motorista se enquadra nas regras do programa: se é taxista ativo, se tem cadastro em aplicativo, se cumpriu o mínimo de corridas exigidas e se pode acessar a política pública.

A etapa seguinte é outra: checar renda, score, histórico financeiro, comprometimento do orçamento, garantias, perfil de risco e a política interna de cada banco.

Os motoristas que precisam do carro novo são justamente os que mais sofreram nos últimos anos com juros altos, custo de manutenção, combustível, aluguel do automóvel, queda de margem e endividamento. O programa atraiu quem mais precisa de crédito, mas a análise bancária continuou dura.



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